A homossexualidade e a Doutrina Católica

Podem usar plenamente o nome de cristão somente aqueles que buscam pôr em prática, na sua vida, os ensinamentos de Jesus Cristo. As fontes dessa doutrina se encontram na Sagrada Escritura, particularmente no Novo Testamento, e na Tradição autêntica, confiados por Cristo a Pedro e aos Apóstolos e seus sucessores, que constituem o Magistério vivo. Assim, não pertencem plenamente à comunidade cristã aqueles que escolhem o que lhes agrada, isentando-se de obedecer à doutrina íntegra, dentro das limitações humanas.
Parece-me oportuno recordar o ensino da Igreja sobre o homossexualismo. Que diz a Sagrada Escritura? O Gênesis (o livro das origens, cap. 19, 1ss) descreve a destruição de Sodoma e, em cores vivas, a decadência moral ali existente. No Levítico (20, 13) lemos: “O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometerão uma abominação”. No Novo Testamento, São Paulo, em sua Epístola aos Romanos, assim se expressa sobre o assunto: “Por isso Deus os entregou, segundo o desejo dos seus corações, à impureza e eles mesmos desonraram seus corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém. Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejos uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração. (…) Deus os entregou à sua mente incapaz de julgar (…), insolentes, arrogantes, fanfarrões” (Rm 1,24-32). O mesmo Apóstolo (1Cor 6,9ss) escreve: “Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem os efeminados, nem os sodomitas (…) herdarão o Reino de Deus (…). Mas vós vos lavastes (…), mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus”.
Em muitas outras passagens da Sagrada Escritura é uma constante o ensinamento sobre a matéria. No novo “Catecismo da Igreja Católica” (nº 2357ss), o assunto é abordado de maneira clara e precisa: “A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres que exprimem uma atração sexual exclusiva ou predominante para com pessoas do mesmo sexo”. E continua: “Reveste formas muito variáveis, através dos séculos e das culturas. A sua gênese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que apresenta os atos homossexuais como depravações graves, a Tradição sempre declarou que ‘os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados’ (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração “Persona humana”, 8). São contrários à lei natural, fecham o ato sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afetiva sexual. Não podem, em caso algum, receber aprovação”.
“Um número não desprezível de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição de homossexuais; essa condição constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se são cristãs, a unir o sacrifício da Cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar em virtude da sua condição”. É óbvio, reprovamos qualquer violência.
“As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e graça sacramental, podem e devem aproximar-se gradual e resolutamente, da perfeição cristã.”
O católico homossexual tem o dever de praticar esse ensinamento e alcançar a vida eterna, mesmo que seja difícil a prática da virtude. Mas tampouco louvar os que nasceram assim. Quem é católico também não pode hostilizar o que nasce com esse fardo, mas deve ajudá-lo. Exaltá-lo como herói é, pois, um contrassenso.
Diante dessa exposição do ensinamento sobre a homossexualidade, o cristão não pode apoiar as manifestações ruidosas em defesa dos homossexuais, sob o pretexto de defendê-los de agressivas atitudes. O caminho não pode ser esse, pois, na prática, exalta essa condição de tais filhos de Deus e nossos irmãos. Esse tipo de pressão se transforma em promoção dos que assim vieram ao mundo.
Sem dúvida, é estranha a posição de autoridades que participam dessas ruidosas manifestações. Muitos de índole carnavalesca – alguns lá estão por esse motivo e não por adesão – onde não faltam tentativas de ridicularizar símbolos cristãos, sem que os organizadores sejam minimamente interpelados por isso. O mesmo se diga dos cristãos que engrossam a multidão dos que integram o apoio a essa situação.
A Igreja ensina que as pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Nem sempre seus ensinamentos são aceitos. Nem por isso ela deve mudar para agradar. O exemplo de Jesus Cristo, pregado e morto na cruz, é consequência de sua fidelidade à verdade, mesmo que desagrade. Não mudou sua pregação quando muitos dela se afastaram, por acharem duro e impraticável o que Jesus Cristo lhes dizia. E aos doze que permaneceram fiéis Ele perguntou: “E vós, não quereis ir?” A resposta de Pedro vale ainda hoje: “Tendes palavras de vida eterna” (Jo 6,67-68). Merecem respeito e ajuda os homossexuais que buscam viver conforme os ensinamentos de Jesus Cristo. Assim rezava Santo Agostinho: “Eu julgava que a continência dependia de minhas próprias forças (…), forças que eu não conhecia em mim. E eu era tão insensato que não sabia que ninguém pode ser continente, se vós não lho concedeis. E sem dúvida concedido, se com meus gemidos interiores vos ferisse os ouvidos e, com firme fé depusesse, em vós os meus cuidados”.
O Santo Padre Paulo VI examinou o assunto e escreveu a carta encíclica “Celibato Sacerdotal”, com data de 24 de junho de 1967, que assim começa: “O celibato sacerdotal, que a Igreja guarda desde há séculos como brilhante pedra preciosa, conserva todo o seu valor mesmo nos nossos tempos”.

Dom Eugênio Sales foi Cardeal arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro de 1971 a 2001.

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